Posts Tagged ‘saudade’

Boa viagem

24/06/2010

A Cecy foi uma avó completamente improvável. Não sabia cozinhar, fazia os piores bolos que eu já comi na vida – e os mais divertidos também. Fazia yoga quando as pessoas não sabiam o que era isso. Fez faculdade de educação física num tempo em que as mulheres nem terminavam a escola. Tinha uma mente tão criativa, mas tão criativa, que acreditava que seu filho havia nascido no mesmo dia que ela, apesar de ela ter parido um dia antes. Fazia obrinhas que sempre deixavam tudo pior, mais feio e menos funcional. Nadava tão bem que de repente estava lá no meio dos barcos, tranquila, de costas, com aquelas braçadas-motores. Fazia sua própria granola, muitas vezes com grampo de grampeador dentro. Vestia as netas com sacos de lixo no lugar de vestidos e as pintava com jeito de monstro e não de princesa. Subia no alto do abacateiro. Virava cambotas. Cambotas! Uma avó que vira cambotas! Fazia vestido de noiva com a cortina da janela. Entrou na faculdade da terceira idade com setenta e poucos anos. Na aula de dança com oitenta e poucos. Com essa mesma idade, colocava as palmas das mãos inteiras no chão com as pernas unidas e estendidas – algo que eu ainda não estou perto de fazer com três anos de yoga. Andava pelos corredores da casa imitando modelo. Gargalhava sempre e de tudo. Nunca reclamava de nada.

A vida, para a Cecy, não era boa. Era ma-ra-vi-lho-sa.

Mesmo depois que sua cabeça começou a se despedir do seu corpo, alguns anos atrás, a vida continuou ma-ra-vi-lho-sa. Os nomes das pessoas, as fisionomias, o cardápio do almoço e do jantar, os dias da semana, o caminho de casa, a ideia de passado, presente e futuro passaram a ser cada vez menos importantes. E foram dando lugar para bailes de gala com toda a alta sociedade. Colônia de férias nas vinícolas chinesas, que emendava com uma viagem pela África – imaginem, para a África – em meio àquelas pessoas pobres e àquela natureza exuberante. Depois apareciam os restos mortais de uma raposa dentro da sala da sua casa. E de repente era o momento de nervosismo, pois estava quase na hora da sua festa de noivado. Gravidez. Outra gravide z. Mais uma. Bicicletas compradas para as suas duas filhas Elianas. Ceias de natal em sua homenagem. Piadas, desfiles de moda. Um veio furunfunfeio saramacuteio que tinha uma balaio daio gurungundaio saramacutaio e um coelhinho dinho gurungundinho saramacutinho.

Enquanto as pessoas envelhecem definhando, enranzizando, se apequenando, se desmovimentando, minha avó Cecy envelheceu viajando. Até que, hoje, depois de andar de ônibus pela cidade com a Luzia, chegar em casa, fazer piada, tomar um banho e sentar para comer, seu coração parou de bater.

Outras linhas já escritas sobre minha avó Cecy

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Família globalizada

22/07/2009

familia2

Meu irmão vai morar fora do brasil amanhã. Vai encontrar uma irmã que já mora lá. O apelido dele é Cuzão e todo mundo na família ocasionalmente chama ele assim. Mas hoje em dia ele cresceu e nem é mais cuzão. Minha mãe não mora em São Paulo e se hospeda na casa do meu pai, que é casado com a madrasta. Eles namoraram uns dez anos e casaram de papel passado há dois. Mas meu pai mora na casa dele e a madrasta na dela e eles durante a semana ficam nas suas respectivas casas e no fim de semana reunem as escovas de dentes. Meu pai também tem uma casa na Ilhabela, que é onde minha mãe mora junto com outra irmã. Mas quando meu pai e a madrasta vão para lá, preferem ficar na casa da minha mãe, que é confortável, silenciosa, tem cachoeira, tucanos, abacates, tem boa comida e todo mundo se dá bem. Quando meu pai ficou muito doente e teve que ficar 2 meses no hospital entre a vida e a morte, minha mãe veio morar na casa do meu pai para cuidar dos filhos e do meu pai. Mas a madrasta, que na época ainda não era madrasta de papel passado, também cuidava dele e meu pai era conhecido no hospital como o homem das duas esposas.

A filha da madrasta mora da europa há muitos anos. Ela veio para o Brasil no ano passado e também ficou na casa da minha mãe na Ilhabela junto com a sua esposa. As três ficaram muito amigas porque trabalham com coisas parecidas — minha mãe restaura moveis e a esposa da filha da minha madrasta é marcineira.

No Natal, quando os filhos moravam todos no mesmo país, a gente reunia a família do meu pai com a da minha mãe e todos passavam o natal juntos. Durante dois natais, além das duas famílias, havia também uns dez filhotes de boxer espalhados pelo jardim, porque a Maia sempre pulava a cerca e cruzava com o Pancho.

Hoje somos todos amigos, as duas famílias são uma só. Quer dizer, as três: a do meu pai, a da minha mãe e a da minha madrasta. Mas nem sempre foi assim. Houve brigas, confusões, desentendimentos, rompimentos, rancores. Mas isso foi sendo resolvido aos poucos, os filhos foram crescendo, as pessoas foram se adaptando e adaptando as suas expectativas e hoje todos convivem mais ou menos harmonicamente.

É claro que a historia não é só bonitinha assim. Família dá trabalho, dá dor de cabeça, tem um monte de gente maluca, faz a gente herdar coisas que não gostaria e parar na terapia. Mas, de uma maneira geral, acho que a nossa família é legal. E o que eu acho mais legal é que ela não veio pronta. Foi sendo construída, desconstruída, foi se moldando de acordo com o tempo e com as demandas de cada um, até ganhar essa cara que ela tem hoje.

Eu tenho orgulho da minha família e morro de saudade dos que moram longe, seja nesse país ou em outro. Mas também acho que a gente se dá bem melhor com a família quando cada um busca seu caminho e quebra esses laços de ter que obrigatoriamente ficar perto e falar todos os dias e saber de tudo da vida dos outros.

Cuzão, boa viagem! Abraça bastante a Marina!

O último tango em Luanda

14/07/2009

A saudade do dia

10/07/2009

kota50

Pois agora estou a escrever esse tal de livro. E aí quando eu pego umas horas para fazer isso a saudade das coisas bate bué. Hoje a saudade foi do Kota 50, um grande homem, um grande amigo.

Ela sabia que eu gostava de jinguba. Então sempre trazia um saquinho pra mim e pros outros cambas na redação. E sabia também que eu gostava de manga. Então, quando era época de mangas, muitos dias eu encontrava uma manga bem linda mesmo ao lado do meu computador. Ele comia manga com casca e tudo. Ele descobriu que eu gostava de cuidar das plantas e queria deixar aquela guest house com mais cara de casa e menos com cara de guest house. Então começou a andar na rua atento para mudas de cactos, temperos ou babosas ou outros pés de coisas que ele pudesse tirar e me presentear. Deixava sempre em cima da minha mesa, embrulhadinha, e eu levava as plantas para casa e colocava no vaso, que era um balde ou a parte de cima de um vaso sanitário abandonado, toda feliz.

Ele sabia também que eu gostava de desbundar e tinha sede de conhecer tudo o que meus olhos alcançavam ou ouviam falar ou nem sabiam que existia. E por isso foi com o Kota 50 que eu passei muitos dos momentos mais alegres da minha vida em Angola. Foi por causa dele que eu sempre tinha companhia para fazer os programas que para mim eram os mais incríveis, mas para quase toda outra gente não fazia muito sentido. Ir ao Roque, ficar 2 horas no trânsito em Viana depois de uma chuvarada, atravessar uma rua tão alagada que esconde o farol para poder chegar num alembamento, a cerimônia de pedido de casamento, ver putos a dançar kuduro, ir comer peixe ou funge na Mutamba, ver exposições de arte, fazer degustações de vinhos e ir em funeral.

O Kota foi lá no aeroporto só para me dar um último abraço de tchau. Chorei bué. Ele sempre me pergunta quando eu vou voltar. Um dia eu volto, Kota.

Cada coisa no seu tempo

09/05/2009

tempo

Quando saí d’angola foi tudo tão apressado e conturbado que não deu nem tempo de sentir saudade daquilo. Primeiro porque meu coraçãozinho, pobre coitado, estava abarrotado de outras coisas, como perdas enormes, angústias enormes, distâncias enormes, mudanças enormes, dúvidas enormes. Segundo porque fui lá para o outro lado do mundo e era tanta coisa nova que nem dava tempo de sentir falta de nada. As energias ficaram mesmo todas voltadas para eu não me perder para sempre naquele labirinto de línguas, outdoords, placas, pessoas e cardápios ilegíveis.

Pois agora que estou do meu lado do mundo e entendo melhor as línguas, os cardápios e as placas (mas não as pessoas), chegou a hora de sentir esses sentimentos que foram adiados.

Pois. Enquanto eu curto essa saudadezinha, fico aqui relembrando que não é legal ir embora de um lugar ou acabar alguma coisa sem fechar devidamente as portinhas.

A Branquela de Angola comprou umas roupas estampadas confortáveis de ficar linda em casa e de ficar lembrando de Angola, ficou arrumando a mala por umas duas semanas tomando vinho e cantando junto com seu mac e postou infinitos posts sobre esse momento de dizer adeus e se reconciliar com essa cidade maldita e querida.

O Candongueiro comeu aquele monte de abacates para acumular gorduras e até guardava metodicamente os abacates na gaveta do escritório, fez festa lá na minha ex-casa e futura pizzaria, devorou tudo que tinha na dispensa para não deixar nada para pessoas que não mereciam e falou frases bonitas para os amigos no seus últimos instantes da última noite ao ter recém-voltado de uma despedida bem importante.

Eu simplesmente bazei de um dia pra outro. Foda isso. O X. também saiu meio repentinamente da vida de Angola e, pelo que estou entendendo, ele também andou por uns tempos assim meio como eu, um pouco aqui e um pouco lá. O animal oportunista foi outro que despencou para fora do país,  expulso pelo sr acaju, e também não fechou as portinhas. Aí ele foi parar lá em Maputo, que pelo menos é igual Luanda, só que tudo mais organizado, então talvez os fechamentos dele também possam ser devidamente elaborados.

Bom, fiz toda essa digressão pra dizer: me deixem ficar revendo minhas fotos, lendo coisas de lá, me deixem falar de angola, falar com as pessoas de angola, repetir os assuntos, me despedir de quem não foi despedido, me deixem, pelo menos por enquanto, ficar um pouco fechada nesse outro mundo fechando as portinhas.

O professor disse que depois de um mês essas coisas passam.

If you wanna feel

02/05/2009

No dia 22 de fevereiro, lá pelas 3 horas da manhã, umas pessoas meio bêbadas, muito felizes e com histórias, origens e pensamentos bem diferentes entre si estão reunidas numa casa que é uma república de brasileiros de uma empresa picareta e que daqui a alguns meses será uma república na frente e uma pizzaria atrás, graças à ideia genial da primeira dama do dono dessa empresa picareta.

A única regra que existe ali é que as pessoas podem fazer o que elas quiserem.

Elas podem tentar fazer uma direção de arte para ensinar o Filete a fechar o microondas de um jeito que a câmera vai fazer uma foto ótima. Elas podem cantar poesias com a voz mais linda que eu já vi enquanto uma música eletrônica toca no fundo ou então marcar o ritmo dos sintetizadores cantando de um jeito agudo, mas que combina bastante com todo o resto.

As pessoas podem ficar bem bravas porque estão bêbadas e não conseguem explicar o que elas querem dizer. Elas podem se apaixonar ou se desapaixonar quando quiserem. Elas podem chorar e não precisam ir dormir nunca porque o dia seguinte é domingo e suas famílias e pertences estão lá do outro lado do mar. Elas podem querer fazer uma festa de despedida sem chamar a namorada porque depois vai dar tempo de perceber como isso é uma estupidez.

Elas podem ir dormir a hora que quiserem. Elas podem dar um cochilo no sofá e dizer que não estão cochilando, mas ouvindo a música, ou podem também ir pensar na vida lá fora da sala e do ar condicionado, na escada que passa por cima de um monte de entulho. Elas podem filmar tudo aquilo, mesmo que não dê para ver direito, pois quem assistir aquelas coisas confusas vai entender que tem muita emoção enlatada naquela sala.

Todas elas podem dizer que o kuduro é o ritmo mais contemporâneo e completo e incrível que existe hoje no mundo porque todos os corpos de todas essas pessoas que estão nessa sala sentem e se enfeitiçam e vivem em Luanda e, mesmo que alguns corpos nunca vão conseguir se mexer naquela frequência linda e esquisita, eles não precisam dizer mais nada, só ouvir tudo aquilo tocando ao mesmo tempo. Elas podem desafinar porque as informações vêm de tantas direções que aquele caos todo se completa e tudo fica perfeitamente harmônico no conjunto.

Elas podem pensar que a sua vida do outro lado do mar ainda está como elas deixaram e que todas as pecinhas vão voltar a se encaixar quando elas voltarem para suas origens, porque elas ainda não estão no futuro e só no futuro elas vão perceber que as peças da vida se transformam toda hora e, quando se está longe e depois volta-se para perto, elas podem não se encaixar mais. A nossa vida não é como aqueles quebra-cabeças de mil ou duas mil peças que eu gostava de montar com minha mãe quando ela ainda morava na minha casa da infância que aparece nos meus sonhos. Naqueles lá, por mais que demore pra encaixar uma peça na outra, elas nunca mais saem dali. E ainda bem que nossa vida não é assim, porque se não iríamos morrer de tédio.

Pum pum tchi pum pum but i feel perhaps we’ll never now. we we we we, but i still pum pum pum pum but i’m stiiiiiiil. if you wanna feel if you wanna feel. Os sons dessa noite divertida que ficaram guardados no vídeo gravado bem amadoramente hoje ficaram me levando de volta para os lados de lá.

Futuro?

23/04/2009

alívio  alegria casa  paz  sono  plantas  saudade  lágrimas  angola  certezas  cinema  rotina  dicionário  yoga  muxima  jet-leg  fim  água  aluguel  reais  amor  recomeço  palavras  nada  terapia  abrir-mão  avenida-paulista  partilha  acreditar  sossego  livro  sapatos-vermelhos  escutar  ilhabela  dançar  reencontros  dúvidas  medos  pizza-braz  essência  chuva  possibilidades  novo tempo.       tempo.       tempo.

foi muito bom pisar em sp

agua1

O ultimo capitulo

18/04/2009

Eu podia ficar horas contando sobre as coisas esquisitas das ruinhas de Hanoi, sobre as plantacoes de arroz de Sapa, sobre o trem, as pessoas incriveis que eu fui conhecendo no caminho ou sobre umas pessoas bem pequenas de etnias minoritarias das montanhas que nos levam ate suas casas e nos fazem almocar la e nos sentir super em casa. Eu podia ficar horas falando sobre muitas outras coisas que eu vi, vivi e senti aqui…

Mas eh que agora fica mais dificil porque o meu coracao ja nao ta mais por aqui. Os nossos coracoes se transportam no espaco e no tempo quando bem entendem, sem que seja necessario fazer uma maratona de voos e aeroportos. Entao o meu ja foi na frente e ja se reocupou todo de novo de pessoas, coisas e sentimentos imensos que eu deixei para tras ha seis meses e dois dias.

Hoje, no resto do sono que eu tive na cama confortavel de um hotel, depois de passar a noite chacoalhando no trem de volta para Hanoi, tive um sonho estranho que foi igual a ultimo capitulo de novela. Nao que ele teve um desfecho ou a solucao de um misterio, longe disso. Mas o meu sonho juntou, igual casamento de ultimo capitulo de novela, um monte de pessoas e lugares que sao ou foram muito importantes para mim nos ultimos tempos. Teve vovoh, amigos antigos e amigos novos, a Cacau e sua barriga de gravida, mae, pai, irmas e irmao, barcos e onibus, chuva, tia Ruth, tio Marcos, vietnamitas fantasiados de roupas angolanas, terapeuta, gente que outras gentes do sonho nao conhecem, vagoes de trem, comida boa, um enorme salao de festa.  

Agora que o coracao ja esta la, so falta o corpo chegar de volta.

O ultimo destino e a longa volta

15/04/2009

Nossa, nem acredito que estou escrevendo isso. Hoje parto, de trem, para meu ultimo destino antes da minha tortuosa volta ao Brasil.
Saio de Hanoi e vou para Sapa, uma regiao montanhosa e bucolica bem no norte do Vietna. Fico dois dias la.

Depois, o trajeto (todo ja comprado!), e o seguinte: Hanoi – Bangkok – Hong Kong (mais2 dias com minha amiga C.!) – Johanesburgo – Sao Paulo. Haja paciencia.

Sao Paulo. La as pessoas falam minha lingua, comem minha comida, escrevem nas minhas letras, falam coisas que eu entendo, fazem gestos que eu faco, beijam e abracam e escutam musicas que eu conheco. Apesar de todos os transformacoes, adaptacoes, finalizacoes e recomecos que eu tenho pela frente e que tenho mesmo certeza de que nao serao nada faceis, nao vejo a hora de chegar em casa.

No se puede ter todo

31/03/2009

A minha saudade do Brasil é na verdade saudade de uma vida que já não pode mais ser minha. E por isso é uma saudade bem doída mesmo. Mas, como diz o amigo argentino ou boliviano da C. que fica viajando o mundo para surfar, no se puede ter todo.