Posts Tagged ‘Serra da Canastra’

Amsterdan

02/07/2010

brasil x holanda na serra

Anúncios

O filme da lua no cinema longe

01/07/2010

Quando a cabeça e o corpo não precisam se ocupar de nada que é necessário, sobra todo o resto das coisas para se fazer. Esse todo resto das coisas de ontem foi ver o filme da lua no cinema longe.

A lua nasce sempre uma hora depois do dia anterior. Então, como antes de ontem ela nasceu às vinte uma e tal, bem na hora da quermesse, significa que ontem ela apareceria umas vinte e duas e tal.

Antes do filme da lua começar, teve o filme das estrelas. No mundo do Mwanito, Jerusalém, inventado pelo Mia Couto, as estrelas foram furadas pela espingarda do Zacarias Kalash. Mas e aqueles borrões brancos que não são um único furo, mas um conjunto de milhões deles, que formam um tecido que só enxergamos quando não tem luz da lua nem luz da cidade? Não sei bem o que eles são, se são os furos da espingarda ou se foram os estragos de uma granada. Mas são bonitos.

Por quase uma hora, o carro subiu a serra, guiado por aqueles farois que iluminavam dramaticamente as árvores retorcidas, as corujas, o condomínio de pedras, os mata-burros, as porteiras. Lindo mesmo era quando os farois eram colocados para dormir no meio da estrada. E aí ficávamos só nós dois, meu pai e eu, escutando o silêncio.

O cinema é a casa do Creuso e da Aline, lá no alto, no meio do nada. É uma tela gigante, 3D, acho que deve ser até 4D. Dá para ver a imensa Delfinópolis lá embaixo e, pela ausência de luzes, dá para imaginar onde está a represa. Dá para ver também como o céu é preto, e não rosa, como a gente enxerga em São Paulo. E como o vento é frio. Dá para ver um chuveiro que nunca desliga com uma botina tomando banho. Lá por detrás dos morros, do outro lado, começa a ficar claro igual o dia raiando. Mas ainda não é o sol do dia. É o sol da noite. Esse sol da noite deixa visível as silhuetas dos morros e das árvores, mas não os detalhes das coisas. Ver à noite é um jeito diferente de ver de dia: existe só o escuro e o claro, nada mais. Depois que as silhuetas aparecem, vem a lua, toda brilhosa, meio cor de caramelo, ofuscando o brilho das estrelas furadas pelas espingardas. O filme foi tão bonito que eu desci a serra na companhia do meu pai e da Billie Holliday já dormindo, com aquele sacolejo bom das estradas de terra.

Uma breve história do meu pai

20/04/2010

Olhem por que eu sou assim:

Uma breve história do meu pai


Ele é engenheiro formado pela poli. Lá no passado teve uma esposa, quatro filhos, uma casa enorme, uma fábrica de compressores de ar uma vida confortável, com casona, caseiro, cachorros e piscina e tudo mais nos eixos. Mas aí empresa se deu mal naquele tempo do collor em que todas as empresas se davam mal, o casamento acabou e ele foi trabalhar por outros, abriu umas franquias e tocou alguns negócios que fizeram a gente sobreviver, mas o dinheiro minguar. Conheceu a Vera. Brigou com a vera, a Vera brigou com a gente, a gente brigou com ele. Terminou com a Vera. Voltou com a Vera. Muitas vezes. Depois abriu uma agência de turismo para quem tem carrões quatro por quatro e essa coisa de criar filhos. Essa coisa de não ter dinheiro com filhos pra criar e recomeçar um negócio era tão estressante, mas tão estressante que ele virou uma bomba atômica. Aí a bomba explodiu. Um mês e meio na UTI e o mundo virou de cabeça pra baixo. Essa coisa de nascer de novo faz isso. Tempos difíceis, recuperação milagrosa, falta de dinheiro, falta de perspectivas, depressão, medo, 60 anos sem dinheiro, sem empresa, sem trabalho e sem concentração, que foi levada pelo AVC. Mas com uma mulher incrível, uma ex-mulher incrível e quatro filhos incríveis. Aí ele casou, de papel passado, com uma festa deliciosa e com a sábia decisão de ir o marido pra uma casa e a esposa para outra. Ele resolveu diminuir o tamanho da sua vida: trocou a casona por um apartamento, comprou um taxi, um alvará e virou taxista por São Paulo. Sem dar a mínima pra quem disse que isso era decadência. Decadência nada. Isso é decência. Decência por entender que o importante na vida é fazer o que gosta: tocar saxofone, estudar música, ir pro clube fazer spinning, ficar com sua mulher, fazer uns almoços com os filhos em casa, tomar banho de cachoeira e não ter grandes preocupações. Ele recomeçou tudo de novo. Recomeçou melhor – menor, mais calmo, mais feliz, se importando com as coisas mais certas. Entendendo de uma forma definitiva que as coisas pequenas são as que mais importam. E aí quando tá tudo calminho e nos eixos ele muda tudo de novo. Comprou uma casa em Delfinópolis, 5 mil habitantes, lá na Serra da Canastra, com planos de se mudar daqui a 3 anos. E de repente vendeu o taxi, o alugou o alvará, comprou um 4×4, fez um camping pra não dar certo, estendeu uma rede na varanda e pronto. Os três anos viraram três meses. Ele agora está lá no interior, feliz da vida, todo sem pressa, sem barulho, sem estresse, completamente realizado com tudo o que ele construiu – e desconstruiu na vida.

Texturas de uma viagem

10/11/2009

textura1

textura2

textura3

textura6

textura7

Pé de ovo

04/11/2009

Alguém pode me dizer quem teve essa ideia genial de inventar um pé de ovo? Essa instalação perdida no meio da Serra da Canastra está entre as mais criativas que eu vi nos últimos tempos.

DSC_7056

plantacao de ovo

Canastra

04/11/2009

Canastra

E de repente tudo é novo de novo. E divertido. E, principalmente, surpreendente. E surpreendente é bom, porque a gente nunca pára de aprender. E eu mais uma vez vejo que é só baixar a guarda que tudo flui, pois é fluido. Não precisa pensar demais: fazer é sempre melhor. A cabeça não fica do tamanho de uma melancia e não dói. O corpo gasta as energias e sabe o que faz bem para ele. A Nina Simone canta e o Sublime também. E o Cartola, o Chico, a Nação Zumbi, a Billie Holiday e até o Zé Ramalho, esse que eu não escutava há tanto tempo. Todos cantam enquanto o tempo passa no meio do mato e das cachoeiras. A água que corre pelas pedras lisas e geométricas tem aquele barulhinho bom que me faz lembrar a casa da minha mãe, que é na beira do rio e tem esse barulho que ocupa o cérebro e não deixa a gente pensar em nada.

Os brinquedos são as câmeras fotográficas – e tem a câmera de filme também agora – e as bicicletas. Tudo sob o sol, o suor, a poeira e o protetor solar. Nem todos entendem de todos os brinquedos, mas cada um vai aprendendo aos poucos. Eu ganhei uma blusa rosa e linda que seca rápido. E descobri que selim é o banco. E que caraminhola ou caramanhola ou algo assim é a garrafinha de tomar a água. Mas mesmo sem saber esse nome eu tomei bué (agora é maningue, tenho me acostumar com essas gírias moçambicanas, já que por esses dias aí darei um pulo lá), pois o tempo é quente e seco. E eu corri, pedalei, escalei, nadei, fotografei, diverti. E todos os dias dormi feito pedra, com o corpo saudável, cansado e quente.