Posts Tagged ‘solidão’

Eu e eu

16/08/2009

Sair de casa de vestido e biquini por baixo, num dia de sol, e chegar, sem nenhuma pressa, até o clube. Colocar a mão naquele negócio que lê quem é quem e passar por aquela aguinha parada. Procurar uma cadeira no meio daquela gente toda, desviar das pessoas conhecidas, a menos que seja meu pai ou a madrasta. Chuveiro, depois piscina, depois vestir os óculos e nadar, apenas nadar, sem contar ou cronometrar, até cansar. Depois um outro chuveiro e deitar de costas para o sol sem dizer nada, só ficar olhando aquelas pessoas iguais, escutando a gritaria boa das crianças e uns pedaços desencontrados de conversas alheias. As conversas começam a ficar distantes, depois elas somem e aí eu sei que eu to a dormir. Levantar, ir até o bar da piscina ou do tênis tomar um suco de melancia e umas coisas refrescantes de comer. Depois pegar o bloquinho e fazer um desenho ou uma anotação. E depois, voltar para casa com a mesma despressa da ida. Sem falar nenhuma palavra. E em paz.

Esse é um programa que eu sempre gostei de fazer. E esse domingo de ressaca foi bem isso que eu fiz. E foi bom. E eu fiquei feliz porque achei que parece que eu to começando a reaprender a ficar sozinha.

Na verdade, eu sempre achei que eu suficientemente bem resolvida para saber e gostar de ficar sozinha. Só que eu achava isso e sempre tinha um namorado do meu lado. Aí é fácil, né? Agora que a situação não é mais assim eu comecei a sofrer com isso. Em muitos momentos, dá aperto no coração, dá solidão, faz lágrimas escorrerem. Sinto falta de dormir de conchinha, de acordar sem pressa no fim de semana e ficar horas tomando o café da manhã e depois ficar discutindo que lava a louça, de ligar para contar como foi meu dia, de sair a toa pela rua para achar um lugar para almoçar, de ficar sem fazer nada juntos, de ter essa sensação boa de como é bom estar ao lado da pessoa que a gente ama e de muitas outras coisas.

Mas acho que to começando a aprender. E a curtir. E agora vou nessa porque aluguei dois filmes do Jean Rouch e to louca pra assistir. Tchau.

eu e eu

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Separação

02/08/2009

separação

Era no meio da noite e a menina não entendeu nada quando aquele som de rádio dessintonizado invadiu o quarto com volume máximo e atordoou os seus sentidos. Não, infelizmente, aquilo não era um sonho. Ela ainda era uma criança e dormia na casa da sua infância junto com uma das irmãs naquele quarto do qual ela ainda hoje se lembra de cada detalhe: o barulho da gaveta dos armários abrindo, o cheiro da janela, a cor do preto da escrivaninha, os lugares em que os pés passavam demais e gastavam o tapete, a estampa do edredon, o barulho dos latidos e dos grilos e dos sapos.

O som de rádio dessintonizado vinha do quarto ao lado. As duas vozes que um dia já foram um casal se desentenderam e uma das vozes, a mais esquentadinha, ligou aquele som todo para chamar atenção, sem se importar que quatro crianças eram apenas crianças e não precisavam entender e nem se envolver em problemas de adultos. Os dois adultos das vozes do quarto ao lado, assim como eles iriam fazer tantas vezes daqui para diante, mesmo sem a menina saber disso naquela época ou entender o que isso significava, não se portaram como adultos e não se importaram com aquele volume todo.

O som só parou quando a menina se levantou sem se questionar muito se essa era a coisa correta a se fazer – ela só sabia que aquele som que doía os tímpanos precisava silenciar –, andou pelas partes gastas do tapete, abriu a porta do quarto, foi até o quarto ao lado, abriu a porta sem bater, caminhou até a escrivaninha e desligou aquele barulho. Não falou com ninguém, não perguntou nada, apenas saiu através do silêncio, como se fosse um fantasma, como se nunca estivesse estado ali. Nessa noite a menina tentou dormir e não conseguiu.

Era uma terça-feira de carnaval e a mulher que achou difícil virar adulta não entendeu nada quando quando uma voz irritantemente calma percorreu milhares de quilômetros de cabos subterrâneos e enterrou, numa conversa telefônica semi-telegráfica, muitos planos e um futuro. Naquele momento, ela teve saudade de quando era uma menina e ainda não entendia quanta dor, solidão e sofrimento podia causar uma separação, mesmo se ela já está anunciada ou se é a melhor coisa a se fazer, mesmo se já não há mais amor, ou se ainda há, mesmo quando uma das pessoas nunca quer falar a respeito e, em vez de fazer isso, fica repetindo mecanicamente que ela está ótima e que deseja tudo de bom para a outra. Naquele momento ela pensou também que, a despeito de tudo, ela quer continuar se envolvendo em historias de amor até o fim dos seus dias. Porque sempre vale a pena. No momento seguinte ela não pensou mais nisso, pois foi rebocada para ir dançar, filmar e se impressionar com o carnaval na marginal.

Terremoto

27/07/2009

Eu tento começar tudo de novo, bem devagarzinho, tijolinho por tijolinho, cuidando bem de tudo. Aí vem um terremoto e em instantes ele destroi toda a parede que tava começando a se levantar. Droga. E eu perco o chão mais uma vez. E eu me sinto sozinha e desprotegida no mundo mais uma vez, mais do que nunca. E eu fico cansada de mais uma vez ter que começar tudo de novo. Sozinha. Sozinha.

Tristes trópicos

31/03/2009

Sobretudo, indagamo-nos: o que viemos fazer aqui? Com que esperança? Com que dificuldade? Meus condisípulos mais ajuizados que se inclinaram para a política hoje eram deputados, em breve, ministros. Quanto a mim, eu corria os desertos perseguindo detritos da humanidade. Quem ou o que me levara, afinal, a jogar pelos ares o curso normal da minha vida? Era um estratagema, um hábil desvio destinado a me permitir a reintegração em minha carreira com vantagens suplementares e que seriam levados em conta? Ou minha decisão expressava uma incompatibilidade profunda com meu grupo social, do qual, acontecesse o que acontecesse, eu estaria fadado a viver cada vez mais isolado? Por um paradoxo singular, minha vida aventureira mais me devolvia o antigo univreso do que me abria um novo, ao passo que este que eu pretendia dissolvia-me entre meus dedos. Assim como os homens e as paisagens a cuja conquista eu partira perdiam, quando eu os possuía, o significado que eu esperava, assim também a essas imagens decepcionantes, conquanto presentes, substituiam-se outras, guardadas por meu passado e às quais eu não dera nengum valor quando ainda pertenciam à realidade que me cercava.

Semanas a fio, naquele planalto do Mato Grosso, eu vivera obcecado, não pelo que me rodeava, mas por uma melodia muito batida que minha lembrança empobrecia ainda mais: a do Estudo número 3, opus 10, de Chopin, no que, por um escárnio cuja amargura também me sensibilizava, parecia resumir tudo o que eu deixara atrás de mim.

Tristes Trópicos, Lévi-Strauss

Sozinhos

22/03/2009

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Wo ia tsi (ou as primeiras impressões de Hong Kong)

17/03/2009

Nas ruas só existem lojas, vitrines e letreiros, tudo muito moderno. Os carros andam na mão errada. As pessoas falam em línguas estranhas e eu fico sem saber se é só uma língua ou são dezenas. Nas vitrines dos restaurantes tem uns patos, gansos e porcos girando inteiros naquelas grelhas e nas calçadas tem uns chinesinhos com cara de pobres descascando cebolas. As pessoas têm cara de bravas e não são simpáticas, ainda mais para quem estava morando em Angola e se acostumou a puxar papo a toa com todo mundo. Duas notas com o mesmo valor têm cores e aparências diferentes e eu fico sem entender nada. Eu compro as coisas com esses dinheiros de cores diferentes e não sei se estou gastando um ou dez dólares, pois não aprendi e em vou aprender a fazer o câmbio. Tudo isso dá um sentimento de solidão.

A internet sem fio do albergue funciona sempre e rápido. Ao desembarcar do avião, minha mala estava numa esteira que servia só para aquele vôo e ela já havia chegado antes mesmo de mim. Saí do aeroporto e havia placas informando como pegar o ônibus A21, que me levou até o albergue. O albergue custa 15 dólares. Aqui tem verduras. O visto para a China sai de um dia para o outro. Precisa só do passaporte, foto e pagar a taxa. Tudo é eficiente, e nesse ponto, sair de Angola dá até um certo alívio. Mas dá saudade.

O albergue da Mrs Lee fica num prédio comercial que tem outros albergues, consultórios, escritórios, lojas e outras coisas que eu não sei dizer muito bem o que são. Cada elevador leva para um grupo de andar diferente e as pessoas ficam alinhadinhas na fila esperando o seu chegar. O que eu tenho que pegar vai pro 5, 7, 13. Até às 20h30. Depois das 20h30 tem que pegar um outro que eu não entendi bem qual é. O quarto é tão pequenino que as duas caminhas ficam quase juntas. O fuso me deixa meio desorientada. Não deu pra dormir no aivão. Eu bem que tentei ocupar uma cadeira da primeira classe que estava vazia, mas a aeromoça me expulsou depois de menos de uma hora de sono. Mas tudo bem. Agora estou de férias.

China in box

11/03/2009

Voltei no massagista chinês que só sabe falar “tila lopa” em português.

Não consegui dizer a ele que poucas vezes na vida me senti tão massacrada por tanta gente ao mesmo tempo e que nunca levei tanta pancada ao mesmo tempo vinda de tantas direções diferentes e que, por isso, o trabalho dele de tentar desestressar meu corpinho com aquela massagem e aquelas agulhas seria difícil.

Não consegui dizer a ele que em breve, muito em breve, estarei lá na China, lá na terra que ele deixou para trás e que sente tanta saudade. Bom, ao menos eu entendi que ele sente saudade quando, da outra vez, ele me disse beijin bom, luanda, no bom.

Eu discordo dele sobre Luanda. Eu acho Luanda bom. Só que, de momento, não está sendo bom. E não é por causa de Luanda em si. As makas são de outra natureza. Beijin ainda não sei se é bom ou no bom. Mas saberei em breve. Estarei loguinho naquelas terras do oriente onde ninguém na rua vai entender nada do que eu digo.

Virou

05/03/2009

ceu-e-chao

E de repente tudo ficou de ponta cabeça e eu parei de entender onde era o chão e onde era o céu

Conection lost

17/02/2009

Não sei se é a chuva que vem do céu pra deixar Luanda debaixo de água, barro e esgoto. Não sei se é o vento que está a soprar forte. Não sei se são as águas do oceano que estão agitadas com a lua. Mas o fato é que hoje a internet não me deixa me comunicar com o outro lado da minha vida. Ou será que sou eu que não to conseguindo me comunicar com o outro lado? Ou será que é o outro lado é que já não quer se virar para cá? Eeei, tem alguém aí?

Saco

24/12/2008

São 18h, estou trabalhando na redação e a única lembrança que eu tenho do Natal é que o peru tem que ir pro forno e sou e um quem vai ter que prepará-lo. Mau humor. Muito mau humor.