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A Taag e o Brás

16/05/2009

A Taag, a empresa aérea falida do governo angolano que perdeu minha mala e depois reencontrou e que perde a mala de um monte de gente todos os dias, agora vai voar três vezes por semana para São Paulo. Antes ela só voava para o Rio, o que não estava fazendo sentido, pois é para cá que as pessoas de lá costumam vir e é daqui que as pessoas daqui costumam sair.

Aí como a Taag inaugurou esse vôo e o dinheiro dela sai da torneira feito água, ela resolveu chamar um monte de jornalistas e pessoas oficiais para fazer esse primeiro vôo. Foi assim que meu amigo Tugolano veio parar aqui por uns dias. Ele é da turma dos jornalistas, não das pessoas oficiais.

E aí eu disse para ele que ele tinha que ir fazer uma matéria no Brás, que é um grande pólo de roupas e calçados, e ele topou. No Brás está cheio de sacoleiras angolanas que atravessam o Atlântico para comprar havaianas, sapatos, calcinhas, cuecas, jeans, blusas, cabelo brasileiro, meias e outras coisas para revender lá em Angola, que ainda não teve tempo de desenvolver uma indústria consistente e tem que importar quase tudo.

Eu mesma já tinha feito essa matéria antes e então já soube indicar certinho os hoteis, as transportadoras, os restaurantes e as ruas para encontrar as pessoas e as informações. Fomos na transportadora palancas, no hotel que serve calulu, funge e muamba de galinha, ficamos sabendo da discoteca que toca kizomba e ficamos a ouvir bué de histórias engraçadas. Ah, também tinha um hotel com aqueles relógios que mostram os horários em várias cidades do mundo e as cidades eram São Paulo, Luanda, Johanesburgo e Lisboa.

Conhecemos um casal de coreanos que vende 90% da sua produção para angolanas. E clientela é tão fiel e a dona encontrou um nicho tão bom que ela mesma foi lá em angola em 2004 para visitar pessoalmente a terra e os hábitos dos seus parceiros comerciais. No balcão da loja tem uma foto dela no aeroporto 4 de fevereiro, um bolo com a bandeira de angola, bué de pessoas a dançar kizomba e uns comércios lá no Roque Santeiro. A dona está tendo tanto sucesso nos seus negócios que seu sotaque um pouco puxado para o coreano chama todo mundo de amigo ou amiga, como se faz lá do outro lado.

O que eu mais gosto desse comércio das sacoleiras é que praticamente um país inteiro se veste graças às viagens dessas moças. O mais natural para a nossa lógica seria que um ou alguns empresários montassem um negócio gigante que levasse contêineres e mais contêineres de roupas do Brás para Luanda. Seria mais simples, mais barato, mais direto, mais econômico. Mas o mais lógico nem sempre é mais lógico para todo mundo ou nem sempre as coisas funcionam da forma mais lógica. Então as mulheres pagam suas passagens, trazem seu kumbu em espécie, vão nas lojas que suas amigas indicaram ou que elas já conhecem, compram as quantidades e as qualidades que elas gostam, pagam a vista, carregam suas malas com o peso máximo permitido, pagam todo o excesso de bagagem permitido, levam suas mercadorias de volta e revendem no Roque, nas ruas, nas pequenas lojas ou na sua casa, tudo bem informalmente. Como é tudo bem caro por lá, essa empreitada compensa.

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A mala ou a troca?

12/02/2009

Tem um filme com a Angelina Jolie que tava no cinema até bem pouco tempo atrás chamado A Troca. O filho da Angelina desapareceu e a polícia devolve um outro menino no lugar do filho verdadeiro. Aí ela tenta dizer que não é o filho dela e a polícia começa a dizer que ela está louca, que é normal rejeitar o filho depois de um trauma tão grande e que aquele é, sim, o filho dela. Aí ela tenta brigar mais e vai parar num hospício pra não manchar a imagem da polícia.

Por que estou contando isso? Porque ontem recebi uma ligação da TAAG dizendo que minha mala foi localizada depois de três semanas passeando por aeroportos do mundo. Parece que ela ficou uns dias em SP, foi pra Johanesburgo e deve chegar hj em Luanda.

E o que isso tem a ver com a Angelina Jolie? Entrei na maior viagem e fiquei pensando que podem me entregar uma mala dizendo que é minha sem ela ser minha, igual fizeram com o filho da Angelina. Fiquei pensando num sr barrigudo da TAAG olhando pra roupas enormes e masculinas dentro da minha suposta mala, dizendo: senhora, é normal emagrecer diante de um trauma tão grande como esse. É claro que essas rupas são suas, sim!

Bom, vamos ver se a tal da mala aperece e se a mala que aperecer é a minha verdadeira.

E minha mala ainda não apareceu

28/01/2009

A epopéia continua. Já cheguei há três dias e nada da mala aparecer. Daqui a pouco já vou conhecer os funcionários do aeroporto pelo nome de tanto ir lá.

Bom, eis o que consegui descobrir nessas idas ao aeroporto:

– Parece que um contentor de malas foi esquecido em Johanesburgo. Muitas outras pessoas tb ficaramsem bagagem.

– Um senhor Tuga que veio no meu vôo e perdeu a bagagem já a encontrou.

– Se vc for simpático com os funcionários do aeroporto, eles podem realmente se empenhar em ajudar. Caso contrário, eles farão pouco caso e aí é pior pra vc.

– Duas reclamações minhas foram inseridas no sistema da TAAG. Não sei se isso ajuda em algo, pois não há um sistema integrado que se comunica com os outros aeroportos.

– A South African (fiz metade do voo pela TAAG e metade pela South African) não abre na quarta-feira no aeroporto. É dia de folga. Terei que ir fazer a reclamação formal de perda da bagagem outro dia.

– O site da South African tem uma parte dedicada a ajudar quem perdeu a bagagem. Mas ele não funciona. Digitei o código da minha bagagem e ele não foi localizado.

– Em Angola, Achados e Perdidos se chama Perdidos e Achados. Acho até mais lógico.

– Milhares de malas se perdem diariamente pelo mundo por falta de organização das cias aéreas.

– É horrível ficar sem roupa num outro país e cogitar a possibilidade de ficar sem todas as coisas queridas que a gente compra durante vários anos e pelas quais a gente se apega.

To a sofrer

26/01/2009

To sem mala. Minha bagagem não apareceu. Talvez chegue amanhã, talvez nunca chegue. O setor de perdidos e achados do aeroporto 4 de Fevereiro é assustador: é imenso, tem centenas ou milhares de malas empilhadas em prateleiras velhas que nunca chegaram aos seus destinos. As malas recém-achadas vão prara uma salinha menor, depois de uns dias lá é que vao para aquela gigante. Talvez meus pertences mais queridos fiquem perdidos de mim pra sempre. Mas eu ainda acho que essa mala vai aparecer. Hj à noite chega um outro vôo, amanhã vou lá no aeroporto de novo. Tomara que ela apareça.

To sozinha. Minha casa, que sempre teve cinco moradores, tem um só, que vai pro Brasil amanhã. Ficarei uns dias sozinha nessa casona, bem os primeiros, que são os mais difíceis. Ainda bem que tem V. aqui embaixo, que me fez companhia ontem, e outras pessoas queridas que conheci na primeira temporada.

To com saudade do marido. E da Olga. E de casa. E dos dias incríveis que eu tive com eles todos, sem fazer nada de especial, e que por isso mesmo foram especiais. As coisas pequenas e simples são as mais legais.

E tem a TPM, que sempre aparece nessas horas.

A segunda temporada começa sem mala

26/01/2009

de-voltaDepois de 24 horas em trânsito, que incluiu um passeio relâmpago por Johanesburgo, reaterrisei em Luanda. Já sabia que na sala maluca da imigração eu precisava pegar o tal formulário do visto, ficar na fila, responder as perguntas corretamente pra passar pra próxima fase, a esteira das malas.

Três vôos haviam chegado naquela tarde (um de Johanesburgo, um de Bruxelas e um de Lisboa), o que fez com que desse pane no sistema. Fiquei quase duas horas vendo aquelas malas desfilarem naquela esteira. E a minha nunca apareceu.

Aí lá fui pra salinha de reclamação fazer um registo (sim, aqui é registo, não registro) do desaparecimento da mala. O senhor escreveu as características da mala num pedaço de papel e disse pra eu voltar amanhã, pois ia chegar um vôo de Johanesburgo. Saí sem nenhuma garantia de que minha mala vai aparecer ou qualquer comprovante de registo da perda da minha bagagem.

Agora to indo lá no aeroporto. Torçam pra que minha malinha, com todas as minhas roupas, livros, presentes e outros pertences queridos me reencontre.

Luanda – Rio

11/01/2009

Algumas etapas da minha viagem Luanda – Rio 

9h – Até então, o vôo da TAAG estava marcado para as 14h. Na véspera, foi transferido para as 9h. No próprio dia, foi transferido para as 12h. Mas a própria TAAG informou em seguida que o voo podia sair às 11h. Às 6h30 eu já estava no infotografável aeroporto 4 de Fevereiro, para não correr o risco de eles mudarem o horário pela quarta vez. O avião saiu às 13h.

10h30 – Há quatro horas no saguão do aeroporto, sou uma das únicas mulheres. Esta terra é para estrangeiros homens virem trabalhar. Os brasileiros pobres estão voltando para as suas casas para desejar feliz natal e feliz ano novo para as suas famílias. Os directores e gentes importantes já foram no fim do ano.

11h30 – Faço o tempo passar alternando a leitura de um perfil inesquecível do Robert Mugabe escrito por um jornalista da New Yorker com a caça de pernilongos enormes que me rodeiam carregando no seu sangue os anjos do paludismo. Por enquanto, só consegui matar três. Ai, pera, matei mais um. Ponto para as meninas.

14h30 – No avião da TAAG, depois de terminar o tal perfil do Mugabe, devoro a Piauí de outubro como se fosse livro: as matérias na ordem, linha por linha, todas as linhas. Leio os anúncios com shows e exposições que já passaram e fico com sede de SP. Nesse micro tempo em que fiquei no aeroporto com os pernilongos de paludismo e no avião da TAAG, li mais do que toda a primeira temporada em Angola.

17h30 – Meu vizinho de vôo, um cearense bem caipira e bem cachaceiro, que bebeu três uísques e três cervejas e só não bebeu mais porque a aeromoça parou de atender aos seus pedidos, me fez lembrar todos os meus roomates. A M. porque fiquei lembrando dos tipos sa sua própria viagem que ela descreveu no blog. O P. porque a TAAG resolveu passar mama mia, e o tal bêbado ficava me cutucando de 5 em 5 min dizendo pra eu colocar o fone de ouvido porque estavam passando músicas lindas. O Z. porque na boca do cara faltava um dente, mais uma comprovação da estranha teoria de que a i.da de brasileiros paa Angolta tem a ver com a falta ou a extração de dentes. O A porque do tal senhor a risada era igualzina a dele. E ele falava tb: ocê tá entendendo?

A véspera da véspera

07/01/2009

Estou a preparar uma lista com todas as encomendas que as pessoas ficam loucas para que sejam trazidas do Brasil para cá. A Y. quer cem dólares de cabelo brasileiro liso e crespo, a Cris quer 50 dólares de cabelo brasileiro ondulado e a Melita, 50 de cabelo liso e também um fato de banho. Ah, Cris tb quer roupas em geral. Outras pessoas que me pediram cabelo brasileiro ainda não deram conta que eu vou em breve para o Brasil, e por isso não formalizaram o pedido. I. quer um gravador digital, desses bons mesmos, pra ele gravar as entrevistas. Chefe peixe quer uma máquina digital. Sua dama está doente, mas como cada semana ela tem um cabelo diferente, ela provavelmente vai encomendar lisos, encaracolados, louros, vermelhos, azuis, etc. B. ainda não me pediu, mas sempre quando algum brasileiro vai de férias, ele pede para comprar um karaóke para o bar da sua mãe fazer mais sucesso, só que ele não fala qual modelo ele quer e tampouco envia o dinheiro adiantado.

Plantei a muda de manjericão e a de camomila que há semanas estavam se enraizando no copo com água num vaso improvisado feito com uma garrafa cortada e com terra de origem duvidosa do jardim lá de baixo, que não é propriamente um jardim, é um espaço com terra em que plantas insistem em nascer. Assim, espero ter em breve duas arvorezinhas para eu arrancar folhas cheirosas que temperam e viram chá.

Já pedi para comprar minha passagem de volta para Luanda pela South African Airlines, pois aí não preciso enfrentar mais uma jornada pela TAAG, as Linhas Aéreas Angolanas, que, por problemas técnicos, é proibida de voar no espaço aéreo europeu, mas vai ao Brasil cinco vezes por semana. Pela África do Sul Demora mais, porém, posso conhecer Cape Town quase de graça na parte da passagem aérea.

Estou a gravar bué de música angolana no meu computador para mostrar a todos como o kuduro é o futuro, o semba é lindo e a kizomba é romântica.

Ontem quis voltar do almoço para o trabalho a pé sozinha para poder ir beeem devagar tomando meu gelado e olhando os prédios, as calçadas, as zungueiras, a poeira, as parabólicas e os varais pendurados, os motoristas a fechar os cruzamentos e a tocar a buzina, os caminhos que eu faço todos os dias, os miúdos a jogar basquete, as vendedoras de peixe, a luz linda, que de manhã estava sem brilho, mas que depois voltou a ser o que é, as roupas elegantes das pessoas na rua, sempre coloridas, engomadas e combinando uma coisa com a outra.