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Cecy

01/10/2009

Quando desci lá na garagem para ajudar a descarregar o carro, em vez de dizer oi, minha mãe me disse: a tia Dedé morreu. Meu pai acabara de lhe dar a notícia. A tia Dedé não é minha tia, é tia avó, irmã da vó Cecy, casada com esse avô sobre o qual eu já escrevi um dia. É tia querida, mais de 90, gente sábia, amada e bué conhecida na Ilhabela. Conhecida dessas de aparecer nos livros e dar nomes pra ruas e escolas e ser homenageada no aniversário da cidade.

Eles eram dez irmãos. Sete mulheres e três homens. Os homens morreram todos, eles vivem menos, é assim mesmo. Acho que não aguentam. Sobraram as sete mulheres. A tia Dedé foi a primeira a partir. Aí é que dá tristeza, porque quando parte uma, é comum outas pessoas próximas irem junto.

Ainda mais essas irmãs. Elas são unidas como eu nunca vi. Mesmo agora que todas têm mais de 80 e vivem em várias cidades diferentes, elas sempre conseguem arrumar uma carona, um esquema, uma confusão para se reunirem nos aniversários, casamentos ou outras celebrações. Elas são todas lindas e alegres. Até mesmo as duas que parecem só estar aqui no corpo, pois as cabeças não funcionam mais, continuam lindas e alegres.

Uma dessas cuja cabeça não funciona mais é minha avó Cecy. Ela foi sendo desligada aos poucos por uma doença triste, que faz as pessoas esquecerem de tudo – do tempo, das pessoas distantes, das pessoas próximas, das obrigações, do dia e da noite. Parece que a única coisa de que ela ainda se lembra é que é sempre melhor ser alegre que ser triste. A fração da sua cabeça que continua plugada está sempre sorrindo, faz piada com sua voz que hoje é baixinha, mas que noutros tempos foi famosa por ser espalhafatosa, imagina galas, homenagens, casamentos, nascimento de filhos e outras coisas grandiosas, nunca desgraças e tristezas. Eu acho que isso é uma espécie de sabedoria.

Agora as sete irmãs estarão todas reunidas pela última vez. Amanhã, em Ilhabela. E eu estou com um nó na garganta danado. Pela partida da tia Dedé e pela família dela. Mas, mas principalmente, por estar pensando sem querer a partida da minha avó Cecy. Porque quando uma pessoa assim velhinha parte, acho que automaticamente nossas cabeças simulam a partida das nossas pessoas. Minha avó Cecy mora aqui do meu ladinho, perto mesmo. Eu posso até ir a pé, não dá nem 20 minutos. E eu to para passar lá para uma visita já faz cinco meses. E nunca passo, porque sempre invento para mim mesma que ela não vai se lembrar mesmo. Mas isso não ta certo. Nossa, queria ir lá amanhã.

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Referências

19/03/2009

Não entendo nenhum gesto, nenhuma símbolo, nenhuma palavra. Tem umas esculturas bonitas e um senhor que passa vagarosamente na frente de cada uma delas e se apoia, melancolico, sobre cada uma, como se estivesse fazendo uma reverência. Bem ao lado tem um senhor de camisa, gravata e calça social arriada fazendo esses movimentos lentos de tai chi chuan. Imediatamente me lembro quando jogava volei no clube Pinheiros no ginásio polesportivo e, junto com minhas amigas ricas que hoje devem estar todas casadas ou bem empregadas ou com filhos, ficava morrendo de rir dessas pessoas que de descolavam do tempo e faziam esses gestos lentos na frente de todo mundo.

Um senhor de terno e gravata fazendo alongamento no meio do parque não tem muito a ver com minhas referências. Nada tem a ver com minhas referências e talvez seja por isso que minha referências da infância ficam aparecendo tanto na minha frente.

Abri um chocolate que me lembrou o formato do chocolate Supresa, esses que vinham com um cartão com um pássaro ou um mamífero e as crianças podiam colecionar.

Vi um casal bem velhinho com uma filha louca sentados num banco e imediatamente pensei na minha avó, meu avô e minha tia Eliana. A dinâmica da família parecia exatamente a mesma, só que com outros códigos. O casal, mesmo já bem idoso, queria cuidar da filha que não tinha juízo na cabeça. E a filha tentava usar todo o seu juízo para cuidar de seus pais idosos. Ela ajudava seu pai a levantar e sua mãe a andar. Nesse equilíbrio instável e carinhoso eles brigavam, gritavam, se beijavam. Depois foram embora.

Esse lugar é triste. Ou eu entendo tão pouco desse lugar que o acho triste. De noite, com tantas luzes e gente nas ruas, parei de achar esse lugar triste.