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Gato que brincas na rua

30/06/2010

Gato que brincas na rua
Como se fosse cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Esse poema foi escrito Fernando Pessoa em 1931.

Hoje, o Flávio Motta, um dos senhores mais sábios e intuitivos que existem no mundo (segundo a Marilia — e se ela ta dizendo eu assino embaixo), declamou esse poema para a própria Marilia. A Marília, que anda numa sintonia danada com o seu coração e, que, por isso, está sempre perto do Flávio Motta e anda a pintar coração para as pessoas queridas, mandou esse poema para algumas pessoas que receberam seus corações para dizer um tchau, já que amanhã ela vai passar uma temporada na floresta incomunicável. Eu, que achei esse poema lindo, agora gostaria de dedicá-lo ao meu amigo Zé Maia, que também tem um coraçãozão enorme e está lá longe, do outro lado do mar, do outro lado do continente, num lugar chamado Maputo, de onde ele acha que quer partir e onde eu acho que quero chegar.

Feliz aniversário

16/10/2009

eu cega

No mesmo dia de hoje, mas no ano passado, eu vestia uma calça laranja e uma blusa azul de bolinhas brancas com um laço nos ombros, arrastava uma mala com umas roupas e uns pertences e uma rodinha a menos e me preparava para ir para esse lugar sem volta chamado Angola. Não dava nem para chorar, só dava para ter pressa, pois eu estava bué atrasada e tive mesmo que correr.

De repente eu estava lá, dentro daquele avião, entre um consertador de ônibus evangélico e um menino estranho com cabelos encaracolados com uns óculos enormes. Eles também haviam deixado tudo para trás.

Deixar tudo para trás é difícil.

O que será que eles estavam sentindo? Será que tinham esposas? Filhos? Havia uma separação anunciada? Iriam virar sócios de uma empresa? Tinham medo de se apaixonar por alguém? De apanhar paludismo? De fazer um filho? Será que eles iriam odiar tudo aquilo? Ou se atirar lá do alto e fazer com que cada instante daquela existência longínqua e inexplicável os marcasse para sempre? Será que eles achavam que tudo ia voltar para o mesmo lugar quando eles voltassem, como eu achava?

Nada voltou pro seu lugar depois desse dia.

Ainda bem.

Por muito tempo, eu fiquei tentando caber num lugar que não era meu. Era um esforço danado ter que ficar se encaixando nos planos que eu mesma fazia para mim. Um dia, quando eu achava que estava tudo encaixadinho, apareceu uma dor de cabeça que não parava nunca. E aí eu pifei. No começo eu não entendi muito bem por que. Demorou para eu descobrir que o que estava errado eram os planos que eu fazia para mim mesma, que atropelavam meus sentimentos, meus instintos e minha essência. Essas coisas todas que existem dentro do nosso peito e que a gente nem sabe dar nome direito têm uma potência mais avassaladora do que conseguimos imaginar ou controlar.

Deixar coisas importantes para trás e embarcar nesse avião sem volta foi a materialização de uma mudança profunda em mim, que começou a ganhar corpo talvez um ano antes.

Decidir embarcar nesse avião foi difícil, talvez a coisa mais difícil que eu já tenha decidido. Só que, ao mesmo tempo, também era como se nem fosse uma decisão. Eu sentia que era o único caminho possível. Era o meu caminho. Embarcar nesse avião era apenas se apropriar do que já era meu. E eu me apropriei da forma mais sincera e intensa que eu pude.

Nunca vivi tanto, chorei tanto, senti tanta saudade, me desiludi tanto, aprendi tanto, mudei tanto, me diverti tanto, dancei tanto, visitei tantos lugares, conheci tanta gente, me apaixonei tanto pela vida. Nunca escrevi tanto. Nunca tive tanta sede. E nem tantos projetos. Meus projetos. Apesar de ter ficado tanto e tantas vezes sem rumo, nunca me senti tão no rumo certo e nem tão preparada lidar com todas as coisas monstras que vão aparecendo pela frente.

Hoje, consigo aceitar melhor que, para mim, talvez tudo esteja no lugar quando está fora do lugar. Que alguns lugares marcados não me servem. Tenho medo? Um monte deles. Mas, quando vou dormir, não sinto aquela dor de cabeça enlouquecedora. E me divirto bem mais.

Feliz aniversário, Ju.

Se desse

22/09/2009

Se desse, eu iria agora mesmo para fora de mim ou para o futuro para saber se continuo fazendo tudo isso ou se tá tudo muito errado.

Mas como não dá, eu vou seguindo em frente fazendo essas coisas que minha intuição acha que são as certas.

Porque eu já fiz demais o que o senso comum dizia que era certo e, de repente, estava tudo muito distante do que eu acreditava e eu fiquei infeliz.

Mas é que esses dias eu ando muito sensível e o que as pessoas dizem estão me fazendo refletir. E algumas me disseram que nunca me viram assim e, apesar de eu não ter entendido tão bem como é o assim, eu fiquei preocupada comigo mesma.

Mais velha

04/09/2009

Bolo, macarronada, vinho, família vazia, amigos imaginários, chuva, festa, amigos reais, macarronada, roupa nova, flores, caipirinha, mojito, ano novo, risadas.

Eu hoje sou mais velha do que eu era ontem. E tenho ressaca por causa disso. E por isso ainda não vou conseguir escrever sobre todas as ideias bonitas que eu refleti na terapia (e depois dela) sobre o aniversário, o últim ano que parece última década, o próximo ano e a vida.

brainstorm.doc

24/08/2009

Akatu, confirmar os dados, pautar infografistas, revisar as ilustras, reencontrar o rafi, cumprir o cronograma. Fazer um cronograma. Ônibus lotado até o centro. Soso galeria de arte contemporânea africana. Chuva, claro. Pra divertir. Ou molhar. Ou nenhum dois dois, talvez para demorar.

Amigos, jantares, jantar, eu escolho o restaurante, os vinhos, faço pose de gente chique que entende de vinho, dou sete voltas na taça para liberar o aroma e todos dão risada. Risoto. Na chuva até tarde.

A maka do carro. Chaparia ta bala, mas motor tá a babar óleo. Kuduro é o futuro.

Proposta de trabalho, proposta de destrabalho, arrumar roomate, falar italiano, desalugar a garagem, esvaziar a cômoda, fazer faxina. Preguiça.

Semana mangolê, Jean Rouch, projetos megalomaníacos, projetos dos sonhos, projeto de vida, saudade. Vontade. Muita vontade. Ainda bem, pois é normal ter vontade, ainda mais agora, nessa etapa da vida, em que as opções que existem não nos servem mais. Mas tem gente que não tem vontade e fica sentado numa cadeira na frente do computador fazendo as mesmas coisas idiotas até todos os cabelos ficarem brancos ou o cérebro atrofiar de vez. Aí tudo o que resta é realizar o sonho da casa própria e esperar os dias passarem.

Brasil – Angola, tás a ver? Ou não tás a ver? Eu to a ver. E dá jogo. Jogo de futebol? Jogo de interesses? Dá jogo, simplesmente. Tenho certeza.

Documentários, novas mídias, velhas mídias, velhas pessoas a falar coisas novas, novas pessoas a falar coisas velhas. Jacaré iemanjá. Três pontes. Três documentários. Quantas pontes? Dois caminhos que atravessam um oceano, um num caminho curvilíneo e lento, que nem o movimento dos navios. Outros muito rápido e em linha reta, que é o tempo do agora, do ontem, do amanhã. Mas e a terceira ponte? Essa ficou perdida em algum lugar. Talvez tenha sido levada pela enchente do rio, pois esse fim de semana choveu bué.

Coisas que eu aprendi em Angola

12/08/2009

Não tenho geladeira em casa há uma semana e não estou nem aí. Quando acordo, em vez de ficar reclamando que minha casa ta sem geladeira, vou comprar um pãozinho na venda do outro lado da rua. Aproveito e já levo um mamão ou uma fruta do conde ou um saco de laranja. E também to achando bom pra começar o dia vendo o céu lá fora. Quando volto, tomo leite em pó com café fresco e pão fresco e fruta fresca. Faço comida na conta certa com alguma coisa fresca que eu compro na hora. Se sobra, ofereço para alguém. Quando da preguiça, tenho o pretexto de que estou sem geladeira e aí vou almoçar com algum amigo ou vou filar boia na casa do meu pai. É claro que geladeira faz falta e eu prtendo voltar a ter uma em breve. Mas isso não pode ser o centro de preocupação de uma pessoa, entendem?

Não aprendi essas coisas em Angola porque lá é pobre e não tem geladeira. Mas porque, lá, as pessoas, na sua maioria, sabem dar importância pras coisas que valem a pena na vida em vez de ficar se preocupando com bobagens.

A vida dos outros

19/06/2009

O telefone tocou e eu tinha que entrevistar o raio do presidente do conselho de administração de uma empresa enorme que fabrica motores para o mundo inteiro e tem sede em Caxias do Sul naquela hora, que era a única que existia livre na sua agenda antes de sexta-feira, meu prazo final. Inventei uma desculpa qualquer e pedi dez minutos pra pelo menos me preparar um pouco e ler aqueles retalhos todos que eu tinha juntado. O senhor executivo não me contou, mas eu li que seu primeiro emprego foi na empresa que ele trabalhou por décadas, foi presidente por 26 e hoje é presidente do conselho. Ao invés de achar idiota aquela vida inteira dedicada a uma empresa que fabrica motores, eu fiquei pensando, nossa, como o mundo é diferente e as pessoas são diferentes, e fiquei admirando a seriedade com que aquele senhor teve uma meta na vida e foi em frente e deve ter construído uma família em que as pessoas fazem o papel delas mesmas (o pai de pai, que aconselha e interfere, a mãe de saia plissada que cuida devotamente dos filhos e tem um coração enorme, os filhos que discordam dos pais, mas fazem o que eles dizem, e assim por diante).

Depois eu fui almoçar com um produtor de cinema sessentão que tem cara de marujo e olhos verdes muito emotivos, que parecem estar sempre prestes a chorar. Sua voz meio grossa, meio cantada, não pára de contar histórias interessantes de gente que viveu a vida e que entendeu, por causa da experiência, o que é importante na vida. Ele conta coisas tao triviais como no tempo em que foi o braço do zé dirceu na sua primeira eleição para político, no grêmio da faculdade ou quando produziu de o bandido da luz vermelha a central do brasil e muitíssimos outros filmes de várias épocas. Conta que já foi rico e teve lancha e casa na praia e casa no campo e que conheceu todo o tipo de personalidade louca que fez ou faz cinema no Brasil, mas que isso não é importante. Seus olhos brilham mesmo quando ele fala da sua mãe de 100 anos que é artista plástica, de bilhetes de pessoas queridas que marcaram sua vida, da personalidade intrigante de um tigre que ele teve que dirigir num filme e de como ele adorava lamber o gelo, sua mãe de 100 anos que é artista plástica, dos seus tem quatro filhos e três ex-mulheres que convivem harmoniosamente, sobretudo o seu último rebento, que tem 17 anos, desenha muitíssimo bem, fala inglês, vai entrar na faculdade e deu um nome tão criativo pro personagem do livro que o pai está escrevendo que eu até esqueci qual é.

Depois do almoço, marquei de conversar com duas jovens empreendedoras sociais que organizam viagens para os brasileiros conhecerem os brasileiros reais e de ir visitar a criadora do genial Museu da Pessoa.

Tem um amigo meu que diz que sempre se impressionava com a minha pré-disposição em conversar com as pessoas, que sempre era maior que a dele, independemente da pessoa e da hora. Pois hoje eu tava assim, desse jeito, gostando de falar com as pessoas, e voltando a achar que esse trabalho que eu tenho, que é ser jornalista, pode, sim, ser interessante.

A ex-cidade de sal

17/06/2009

Vai ter um filme chamado Sudoeste que escolheu uma locação que é uma salina semi-abandonada. É um lugar branco, vazio e horizontal, que parece existir só no passado.

As nuvens refletidas nas pequenas lagoas geometricamente quadradas são cor de rosa porque pegam a cor do solo sujo. E o sujo da salina, estranhamente, é rosa. Quando as galochas pretas dos poucos colhedores de sal que restaram ali andam pelos caminhos que eles mesmos fizeram entre uma lagoa quadrada e outra, faz um barulhinho bom de concha quebrando.

Os olhos das pessoas nunca conseguem ficar muito abertos, mesmo em dia de nublado, porque é luz demais refletindo naquela água toda. O silêncio mora ali, a menos quando o tec-tec-tec do motorzinho que parece de barco de pescador fica ligado para puxar água. Os moinhos velhos, que recebem óleos pretos que sujam as luvas dos moços que escalam até lá em cima, transferem a água das lagoas originais para as lagoinhas quadradas. No reservatório que existe perto do moinho há uma pequena montanha de espuma branca, formada quando o sal se separa da água que move o moinho. Aquela espuma toda parece uma nuvem aterrisada, pois é leve e gordinha.

Já os montes enormes de sal, esse sal fora de época que se formou porque o homem mudou o clima e parou de ventar e de chover e o sal fez em junho, quando deveria ser feito só em outubro, que parecem neve. Sabe aquela neve que as máquinas de tirar neve do meio da rua jogam, junto com sujeira, no canto das avenidas grandes? Então, parece esse tipo de neve, meio remexida, meio feia, meio dura.

Em outros tempos, ao redor dessas lagoas geométricas, que já pertenceram a uma grande empresa, existiu praticamente uma cidadezinha lá dentro, com igreja, escola, caminhos e bué de casas. O sal e o tempo deixaram apenas algumas de pé. Hoje, para além dos 18 homens que eram antigos empregados e hoje arrendam as lagoinhas e cuidam de tudo sozinho, vagam por ali apenas fantasmas.

Em uma das casas de parede azul, vermelha e arruinada ainda dá para ver a marca da cola que grudou inúmeros pôsteres na parede. Eu tentei perguntar aos fantasmas se as colas grudaram retratos de famílias em preto e branco, páginas de revista de mulher pelada, fotos antigas de famílias ou jogadores de futebol. Eles não me disseram.

Mas agora não interessa mais. Muito em breve,  algumas paredes serão derrubadas e as que ficarem receberão uma demão de tinta nova azul ou vermelha. Em pouco tempo, a casa vai ficar como nova. Só que, em vez de pessoas morarem, ela servirá só para os atores morarem nas vidas dos seus personagens. Depois, acho que ela voltará a ser o que era: um marcador do tempo que passa e corrói as estruturas.

Quanto tempo será que demora para a casa nova se tornar velha e abandonada como as suas irmãs? Será que as outras aguentarão esperar de pé? A igreja pequenina com o altar azul e branco resiste firme e forte. Por quanto tempo? A cruz apodreceu ou desapareceu, assim como os santos, jesus, os bancos, a mesa, o padre, as pessoas, a missa, a música, os pecados, as vozes. A escolinha também continua ali, fazendo companhia à igreja vazia, muda, morta.