Alguém pode me dizer quem teve essa ideia genial de inventar um pé de ovo? Essa instalação perdida no meio da Serra da Canastra está entre as mais criativas que eu vi nos últimos tempos.


Alguém pode me dizer quem teve essa ideia genial de inventar um pé de ovo? Essa instalação perdida no meio da Serra da Canastra está entre as mais criativas que eu vi nos últimos tempos.



E de repente tudo é novo de novo. E divertido. E, principalmente, surpreendente. E surpreendente é bom, porque a gente nunca pára de aprender. E eu mais uma vez vejo que é só baixar a guarda que tudo flui, pois é fluido. Não precisa pensar demais: fazer é sempre melhor. A cabeça não fica do tamanho de uma melancia e não dói. O corpo gasta as energias e sabe o que faz bem para ele. A Nina Simone canta e o Sublime também. E o Cartola, o Chico, a Nação Zumbi, a Billie Holiday e até o Zé Ramalho, esse que eu não escutava há tanto tempo. Todos cantam enquanto o tempo passa no meio do mato e das cachoeiras. A água que corre pelas pedras lisas e geométricas tem aquele barulhinho bom que me faz lembrar a casa da minha mãe, que é na beira do rio e tem esse barulho que ocupa o cérebro e não deixa a gente pensar em nada.
Os brinquedos são as câmeras fotográficas – e tem a câmera de filme também agora – e as bicicletas. Tudo sob o sol, o suor, a poeira e o protetor solar. Nem todos entendem de todos os brinquedos, mas cada um vai aprendendo aos poucos. Eu ganhei uma blusa rosa e linda que seca rápido. E descobri que selim é o banco. E que caraminhola ou caramanhola ou algo assim é a garrafinha de tomar a água. Mas mesmo sem saber esse nome eu tomei bué (agora é maningue, tenho me acostumar com essas gírias moçambicanas, já que por esses dias aí darei um pulo lá), pois o tempo é quente e seco. E eu corri, pedalei, escalei, nadei, fotografei, diverti. E todos os dias dormi feito pedra, com o corpo saudável, cansado e quente.
Eu já havia escrito sobre ele. Agora apresento o Simon Bolivar, que eu conheci na Estação da Luz.
E nessa de entender de onde eu sou e de onde eu vim, Casa Grande e Senzala virou meu livro de cabeceira. Vou lendo bem devagar, anotando uns trechos, encantada com essas palavras boitas, esse monte de sabedoria acumulada e essa história misturada que é a nossa dos brasileiros. E assim vou aprendendo um monte.
Sempre tive um certo desinteresse pelos tugas. Achava um país besta, desimportante. Depois que fui parar em Angola, que tem outra relação com o colonizador comum, uma relação muito mais do presente, e depois que conheci bué de tugas, comecei a ficar mais intrigada com esses nossos parentes. Percebi que o que somos hoje também tem muita relação com eles, mas, na verdade, sabemos bem pouco de quem eles são. Agora com o Gilberto Freyre, to aprendendo um monte. E adorando entender um pouco melhor quem são os portugueses.
Vou transcrever umas partezinhas:
A singular predisposição do português para a colonização explica-a em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África. Nem intransigentemente de uma nem de outra, mas da duas. A influência africana fervendo sobre a europeia e dando um acre requeime à vida sexual, à alimentação, à religião; o ar da África, um ar quente, oleoso, amolecendo nas instituições e nas formas de cultura as durezas germânicas; corrompendo a rigidez doutrinária da Igreja medieval. A Europa reinando mas sem governar; governando antes a África.
“Em vão se procuraria um tipo físico unificado”, notava há anos em Portugl o Conde Hermann de Keyserling. O que ele observou foram elementos os mais diversos e mais opostos, “fugiras com ar escandinavo e negroides”, vivendo no que lhe pareceu “união profunda”. “A raça não tem aqui papel decisivo”, conclui o arguto observador.
A indecisão étnica e cultural entre a Europa e a África parece ter sido sempre a mesma em Portugal como em outros trechos da Península. E gente mais flutuantes que a portuguesa, dificilmente se imagina; o bambo equilíbrio de antagonismos reflete-se em tudo o que é seu, dando-lhe ao comportamento uma fácil e frouxa flexibilidade, às vezes perturbada por dolorosas hesitações, e ao caráter uma especial riqueza de aptidões, ainda que não raro incoerentes e difíceis de se cinciliarem para a expressão útil ou para a iniciativa prática.
Considerando-se no seu todo, o caráter português dá-nos principalmente a ideia de “vago impreciso”. O caráter português é como um rio que vai correndo muito calmo e de repente se precipita em quedas d’água: daí passar do “fatalismo” a “rompantes de esforço heroico”: da “apatia” a explosões de energia na vida particular e a revoluções na vida pública.; da “docilidade” a “ímpetos de arrogância e crueldade”. É um caráter todo de arrojos súbitos que entre um ímpeto e outro se compraz em certa indolência voluptuosa muito oriental, na saudade, no fado, no lausperene.
Tomando em conta tais antagosinsmos de cultura, a flexibilidade, a indecisão, o equilíbrio e a desarmonia deles resultantes, é que bem se compreende o especialíssimo caráter que tomou a colonização do Brasil,a formação sui generis da sociedade brasileira.
Quanto à miscibilidade, nenhum povo colonizador, dos modernos, excedeu ou sequer igualou nesse ponto aos portugueses. Foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicando-se em filhos mestiços que uns mulheres apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se na posse de terras vastíssimas e competir com povos grandes e numerosos na extensão de domínio colonial e na eficácia de ação colonizadora.
Ai, tá, e pra terminar, uma partezinha da África, para não perder o hábito:
Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo a influência direta, ou vaga a remota, do africano. Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam os nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera da vida, trazemos quase todos a marca da influência negra

No mesmo dia de hoje, mas no ano passado, eu vestia uma calça laranja e uma blusa azul de bolinhas brancas com um laço nos ombros, arrastava uma mala com umas roupas e uns pertences e uma rodinha a menos e me preparava para ir para esse lugar sem volta chamado Angola. Não dava nem para chorar, só dava para ter pressa, pois eu estava bué atrasada e tive mesmo que correr.
De repente eu estava lá, dentro daquele avião, entre um consertador de ônibus evangélico e um menino estranho com cabelos encaracolados com uns óculos enormes. Eles também haviam deixado tudo para trás.
Deixar tudo para trás é difícil.
O que será que eles estavam sentindo? Será que tinham esposas? Filhos? Havia uma separação anunciada? Iriam virar sócios de uma empresa? Tinham medo de se apaixonar por alguém? De apanhar paludismo? De fazer um filho? Será que eles iriam odiar tudo aquilo? Ou se atirar lá do alto e fazer com que cada instante daquela existência longínqua e inexplicável os marcasse para sempre? Será que eles achavam que tudo ia voltar para o mesmo lugar quando eles voltassem, como eu achava?
Nada voltou pro seu lugar depois desse dia.
Ainda bem.
Por muito tempo, eu fiquei tentando caber num lugar que não era meu. Era um esforço danado ter que ficar se encaixando nos planos que eu mesma fazia para mim. Um dia, quando eu achava que estava tudo encaixadinho, apareceu uma dor de cabeça que não parava nunca. E aí eu pifei. No começo eu não entendi muito bem por que. Demorou para eu descobrir que o que estava errado eram os planos que eu fazia para mim mesma, que atropelavam meus sentimentos, meus instintos e minha essência. Essas coisas todas que existem dentro do nosso peito e que a gente nem sabe dar nome direito têm uma potência mais avassaladora do que conseguimos imaginar ou controlar.
Deixar coisas importantes para trás e embarcar nesse avião sem volta foi a materialização de uma mudança profunda em mim, que começou a ganhar corpo talvez um ano antes.
Decidir embarcar nesse avião foi difícil, talvez a coisa mais difícil que eu já tenha decidido. Só que, ao mesmo tempo, também era como se nem fosse uma decisão. Eu sentia que era o único caminho possível. Era o meu caminho. Embarcar nesse avião era apenas se apropriar do que já era meu. E eu me apropriei da forma mais sincera e intensa que eu pude.
Nunca vivi tanto, chorei tanto, senti tanta saudade, me desiludi tanto, aprendi tanto, mudei tanto, me diverti tanto, dancei tanto, visitei tantos lugares, conheci tanta gente, me apaixonei tanto pela vida. Nunca escrevi tanto. Nunca tive tanta sede. E nem tantos projetos. Meus projetos. Apesar de ter ficado tanto e tantas vezes sem rumo, nunca me senti tão no rumo certo e nem tão preparada lidar com todas as coisas monstras que vão aparecendo pela frente.
Hoje, consigo aceitar melhor que, para mim, talvez tudo esteja no lugar quando está fora do lugar. Que alguns lugares marcados não me servem. Tenho medo? Um monte deles. Mas, quando vou dormir, não sinto aquela dor de cabeça enlouquecedora. E me divirto bem mais.
Feliz aniversário, Ju.
O sucesso das elétricas
As motos elétricas foram o grande sucesso do Salão de Duas Rodas, que terminou ontem no Parque do Anhembi, em São Paulo. Desde pequenas bicicletas com potência inferior à de um chuveiro a potentes modelos de competição, foram elas que despertaram o maior interesse dos visitantes. Para se ter uma idéia, a Kasinski, comprada recentemente pelo grupo chinês Zongshen em sociedade com o empresário brasileiro Cláudio Rosa, vendeu 260 scooter elétricos de 1000 watts (potência semelhante à d euma moto de 100 cilindradas, segundo o fabricante). Já o mesmo modelo de scooter, mas movido à gasolina, teve 150 unidades vendidas nos seis dias de exposição.
Lembra do lírio? Ele é rosa e a luz do fim do dia que bate na sala é rosa. Aí fica assim, bonito. 








As plantas que vivem presas dentro dos vasos e das casas das pessoas morrem a toa. Falta espaço, falta luz, falta ar, falta carinho também, geralmente. Elas crescem pouco, ficam atrofiadas, tristes. Vêm das lojas todas lindas, cheias de botões e folhas novas, com embrulhos e fitas. Mas é pura aparência. Depois de uns dias, desmantelam-se, amarelam-se, murcham.
Eu fui criada no mato, com espaço, pés de frutas, azaleias que nunca param de crescer e trepadeira que cobre toda a parede da casa. Fui aprender sobre essa coisa de vasos há uns quatro anos, quando virei gente grande e fui morar lá no sobrado da rua São Manoel.
Percebi que não é a mesma coisa que ter um jardim de verdade, desses que os pés pisam na grama friinha e molhada e que os bichos passeiam. Mas que também é possível. Se as plantas forem cuidadas, elas vão que vão. Tem que cortar as folhas velhas. Revirar a terra. Colocar um adubo líquido que mistura uma dose pequena num monte dágua. Passar para um vaso maior.
Algumas não me dão bola e morrem. Eu fico um pouco triste e guardo o vaso e a terra para a próxima que sobreviver. Mas outras resistem e crescem. De repente, de uma planta que está ali na mesma, meio estacionada há meses, nasce um botão que cresce com uma vontade que eu nem entendo de onde vem, e surge uma flor linda.
Esses dias o botão do lírio que nasceu sozinho há menos de um mês abriu. O lírio é uma planta fresca, não é sempre que ele faz isso.
Enquanto o lírio crescia, o cacto foi ficando amarelo. Logo o cacto, que é forte, duro, resistente, independente, masculino. Não precisa nem cuidar. Quanto menos atenção, melhor. Ele só precisa de sossego e luz. Ainda tentei colocá-lo na varanda para ver se ele revigorava. Não teve jeito.
No dia que o botão cor de rosa e perfumado abriu, o cacto foi pro lixo, mortinho. Morreu de excesso de cuidado. Ou então porque, nessa casa, as coisas antigas, de energias velhas, que já não fazem mais sentido, não estão mais cabendo. E aí, por mais que demore, elas se suicidam, fogem ou são convidadas a se retirar.
