Um ano é um recorte do tempo. Para nós, que não enxergamos a Terra dando a volta em torno do sol, um ano é uma mera abstração. Não fosse essa convenção chamada calendário, nós não saberíamos quando ele começa e quando acaba.
Mas é assim mesmo: os seres humanos fazem recortes no tempo, no espaço e nas vidas e estabelecem datas, criam rituais, símbolos, ícones. Tudo isso tecnicamente não serve para muita coisa. Podíamos contar os dias sem recomeçar tudo de novo. Acho que já funcionaria.
Mas a gente celebra os anos, os recomeços, os aniversários, as datas históricas e essas coisas repetidas porque tudo isso são formas de refletirmos, de olharmos para trás, de procurarmos nos conhecer e entender melhor.
Olhar um período que começa e termina, seja qual for o recorte escolhido — um ano, uma vida, uma década, uma música, a duração de uma viagem — nos faz automaticamente mais introspectivos. Automaticamente nos faz pensar na nossa trajetória durante esse espaço ou tempo: o que acertamos, o que faríamos diferente, de que maneira nos transformamos, com quem nos relacionamos e que sentimentos causamos nessas pessoas.
Então, celebrar a passagem do ano, apesar de objetivamente não ser nada tão relevante assim – não seremos novas pessoas porque o ano virou, é apenas mais um dia que começa quando o sol começa a subir o horizonte – é um momento especial. As energias todas das pessoas estão voltadas para dentro e para o que pode ser melhor e isso faz o ar ganhar um gosto bom.
No meu último ano aconteceu tanta coisa que foi um ano que valeu por uma década. Apareceram os dois primeiros fios de cabelos brancos. Conheci alguns países, línguas, culturas, gostos e misturas de vários cantos diferentes. Viajei carregando muitos dólares no sutiã. Fiz bué de novos amigos que, assim como eu, querem se espalhar pelo mundo, virei mais amiga de outros amigos e menos amiga da outros, convivi com homens incríveis e outros nem tão incríveis assim. Voltei para a cidade que eu nasci e que, por causa dos vários cantos do mundo que eu passei, virou diferente. Me adaptei a uma série de novas situações. Não foi exatamente um ano, assim, fácil. Teve desilusões, despaixões, separações e a concretização de uma mudança estrutural na minha vida que começara a alguns anos antes. Uma grande mudança requer um grande investimento de energia.
Voltei para minha casa vazia, entendi como uma separação machuca fundo, abri mão de um trabalho que podia me fazer mais rica e mais infeliz, convivi muito comigo mesma – e vi que isso é bom e nem sempre fácil. Comecei muita coisa do zero, transformei muita coisa em mim, investi muita energia num novo projeto de longo prazo. Semeei. Agora o tempo e a natureza se encarregam de fazer algumas sementes brotaram. Perdi o foco, mobilizei pessoas, fiquei mais ansiosa que devia,senti e ainda sinto muito medo, mas fiz o mundo girar em torno das coisas que eu achava importantes.
Nossa, que ano cheio. Que ano cheio de esperanças, de fertilidade e de adaptações. Foi o ano que eu entendi que o meu caminho não é o mais convencional e nem o mais seguro, mais é o meu e é isso que me faz me sentir inteira. E também entendi que tudo bem sentir medo, desde que se esteja indo na direção que o corpo, as células, o coração e o cérebro nos indicam. E isso me dá toda a energia que eu preciso para continuar sendo essa pessoa cheia de energia, alegria, planos e sonhos.
Eu desejo um feliz ano novo para todas as pessoas que vão atrás dos seus sonhos.